Anestesiologistas, anjos da guarda no processo cirúrgico 

No dia 17 de setembro foi comemorado o Dia Mundial da Segurança do Paciente, data que tem o objetivo de conscientizar os atores da saúde e da sociedade civil sobre a necessidade da implementação das práticas de segurança nos serviços de saúde para minimizar riscos e danos ao paciente, refletindo na melhoria da qualidade do cuidado prestado nos serviços de saúde do país.

A Sociedade Brasileira de Anestesiologia, por meio da Diretoria de Defesa Profissional, atua ativamente na produção de ações, campanhas e desenvolvimento de projetos que visam à plena conscientização dos anestesiologistas sobre o desenvolvimento de um ambiente seguro para o paciente, que vão desde a consulta pré-anestésica até o acompanhamento pleno na sala cirúrgica. 

Em 2021, por meio do slogan “Segurança do paciente, eu pratico”, a SBA convidou os profissionais da especialidade a assumirem papel de importância na discussão do tema. Para falar um pouco sobre as ações executadas pela sociedade, o diretor de Defesa Profissional, dr. Luis Antonio Diego, concedeu entrevista para a Anestesia em Revista em que conta um pouco sobre o trabalho da Diretoria executado este ano.  Veja a entrevista na íntegra:

Anestesia em Revista: Qual a importância de falar sobre a segurança do paciente no universo da anestesiologia? 

Dr. Luis Antonio Diego: A segurança do paciente é o maior objetivo da anestesiologia, pois a especialidade não progrediria se a segurança não fosse a prioridade. É só olharmos para a aviação: se todos os dias tivéssemos um avião comercial indo ao chão, a aviação comercial possivelmente nem existiria. 

A anestesiologia tem como objetivo cuidar do paciente durante uma proposta operatória. Esse cuidar vai além do ato de se aplicar uma injeção com um anestésico para dirimir a dor e permitir a realização de uma cirurgia. O anestesiologista, durante a sua atuação perioperatória, procura saber de todos os detalhes do paciente, como possíveis alergias, outras doenças que podem comprometer a própria cirurgia e a experiência em procedimentos anteriores.  

AR: Podemos falar que o anestesiologista é essencial para garantir a segurança no processo cirúrgico? Por quê? 

LAD: O cirurgião ou outro médico que esteja fazendo um procedimento, como um exame invasivo, por exemplo, está centrado na execução do seu procedimento, na cirurgia propriamente dita. O anestesiologista vai, no cuidar, fazer todo o possível para que o paciente saia da cirurgia bem: aquecido, sem dor, com as suas funções fisiológicas equilibradas e, na maioria das vezes, com a possibilidade de uma internação hospitalar menor. Por tudo isso, o anestesista é essencial na grande maioria das cirurgias. 

AR: Dia 17 de setembro foi celebrado o Dia da Segurança do Paciente. Qual a importância de falar sobre a data durante todo o ano? 

LAD: Até o final do século XX, a segurança do paciente estava inserida apenas como uma dimensão da qualidade. Entretanto, um estudo muito importante realizado na década de 1990 pela Harvard University, divulgado internacionalmente, mostrou que a quantidade de eventos adversos que poderiam ter sido evitados não era pequena e, voltando à comparação com a aviação comercial, equivaleria à queda de um grande avião de passageiros por dia; a diferença é que a percepção pela população do dano causado não é o mesmo por ser um dano diluído ao longo do tempo e não divulgado, na maioria das vezes, pela mídia.  

AR: Que ações a SBA executa para garantir a anestesia segura? 

LAD: A SBA possui a Comissão de Qualidade e Segurança em Anestesia (CQSA), que está totalmente direcionada para o conhecimento desses eventos adversos e o estudo deles para que atinjam o menor nível possível, muito embora entenda-se que risco zero não existe, pois o imponderável é próprio da atividade humana. 

AR: Recentemente, a Diretoria de Defesa Profissional lançou um app de eventos adversos. Poderia explicar aos nossos leitores qual a função do aplicativo? 

LDA: O aplicativo Emergências em Anestesia se propõe, principalmente, a prover ao anestesiologista o conhecimento sobre as principais dificuldades observadas no ato anestésico. Ele orienta sobre a conduta em emergências, mas também permite que o próprio anestesiologista, de forma completamente anônima, possa fazer o relato de eventos adversos fortuitos. O principal objetivo é o conhecimento do que houve e a divulgação de medidas preventivas.  

O conhecimento desses eventos adversos, que poderiam de algum modo ser evitados, permite que diversas ações sejam realizadas para tentar minimizá-los. O importante é que a SBA, sabendo o que se encontra mais prevalente, possa atuar com atividades de ensino e educação permanente, de modo a alertar a todos sobre essas situações dissonantes com a segurança do paciente e também a qualidade do trabalho do anestesiologista.  

AR: O que é considerado um evento adverso em anestesiologia? 

LAD: Conceituar “evento adverso” não é simples, quando alguém se detém para estudá-lo com maior profundidade. Entretanto, a definição que ainda me parece mais clara é a do Instituto de Medicina dos Estados Unidos:  um “evento que resulta em danos não intencionais ao paciente por um ato de comissão ou omissão, e não pela própria natureza da doença subjacente ou condição do paciente”. Enfatizo que é apenas um resumo do que realmente se tem ao se estudar a segurança do paciente e todos os tipos de situações indesejáveis na assistência.  

AR: Quais projetos a Diretoria de Defesa Profissional está prevendo para este ano? 

LAD: O Departamento de Defesa Profissional da SBA vem atuando em diversas frentes, como a do lançamento do aplicativo, já mencionado, mas também em ações educativas, como webinários sobre o tema. Além dessas ações mais técnico-científicas, também há um grande trabalho da comunicação da SBA, com diversas ações nas mídias da entidade. Fazemos parcerias importantes com outros organismos nacionais, como a Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado (Sobrap), e também internacionais como a própria European Society of Anaesthesiology and Intensive Care (ESAIC).  

O Boletim Minuto é um meio de comunicação que tem sido muito útil para o associado e tem ajudado a compreender melhor o que o anestesiologista deve fazer para ter a segurança do paciente sempre como prioridade. Outra ação é a divulgação de um podcast quinzenal com algum tema relacionado, com convidados experts no assunto e que podem repercutir para toda a sociedade. A CQSA muito colabora nesses canais de comunicação.  

AR: Qual mensagem o senhor gostaria de deixar aos profissionais da área e aos demais leitores sobre a importância da segurança do paciente?  

LAD: Ninguém se submeteria a um procedimento cirúrgico se não houvesse segurança, além da qualidade do serviço, com um cuidado atento e solidário. O anestesiologista é o “anjo da guarda” que está ao lado da pessoa que estará num ambiente hostil, desconhecido e que usualmente encontra-se frágil pela sua condição. Ter ao seu lado um anestesiologista bem formado e atualizado com todas as inovações tecnológicas, além do exercício genuíno da empatia, é o melhor conselho que podemos dar aos novos especialistas ou a todos aqueles que pretendem abraçar essa linda e estimulante especialidade.  

 


Erros na administração de medicamentos (EAM)

Por Antonio Roberto CARRARETTO, TSA-SBA, MSC, PhD

O anestesiologista planeja, seleciona, prepara e administra os medicamentos. Na indução anestésica é comum o uso de cinco ou mais medicamentos, podendo ultrapassar a dez no ato anestésico. Lidar com embalagens primárias (frascos, ampolas, bolsas) com rotulações diferentes, por vezes, mais voltadas para a identificação da empresa do que do próprio fármaco, podem gerar EAM nas diversas das fases do processo, com consequências que vão desde a lesão temporária/permanente até ao óbito.

Na cadeia de Segurança do Paciente, para a preservação de sua vida, todos são responsáveis desde o diretor do estabelecimento até o farmacêutico e o anestesiologista. Apesar dos EAM ocorrerem pelas mãos do anestesiologista, existem métodos que diminuem esta possibilidade e daí a responsabilidade coletiva. A segurança não deve ser violada pela diferença de custo, já que os acidentes também têm elevado custo nas finanças e na reputação de todos, incluindo a instituição, transformando-nos em segunda vítima. Lembrem-se que administramos medicamentos potencialmente perigosos.

O cansaço e a fadiga de horas acumuladas de trabalho, a sobrecarga de tarefas, a falta de rotinas pessoal e institucional voltada para a segurança, a deficiência na iluminação, a comunicação ruidosa, as interrupções distrativas, os fármacos misturados com rótulos semelhantes e de baixa legibilidade, são as principais causas dos EAM.

As sociedades e organizações de todo o mundo criaram normas técnicas (NT) para evitar o EAM e o sistema ideal possui, no mínimo, uma padronização das embalagens primárias e das etiquetas para as seringas, com cores e tipografia em tamanhos e formatos diferentes.

Como evitar os EAM?

Estar preparado e em condições físicas e mentais requeridas

Selecionar os fármacos a serem utilizados, identificando-os

Identificar a seringa com etiqueta padronizada por códigos de cores

Verificar o frasco/ampola comparando-o com a seringa

No preparo: ler quatro vezes o rótulo do fármaco

Ao retirar o medicamento

Ao preparar e rotular a seringa

Antes de descartar o frasco/ampola

Ao injetar no paciente

Precisamos realizar alterações em diversas fases do sistema tais como:

 

Sistema multimodal desejável para a prevenção dos EAM

Padronização do acondicionamento

Seringas pré-preenchidas

Rótulos grandes com cores para identificação

Códigos de leitura e sistemas aprimorados de rotulagem

Registro eletrônico automatizado

 

ABNT NBR ISO 26825:2021. Equipamento anestésico e respiratório — Rótulos aplicados pelo usuário para seringas contendo medicamentos utilizados durante anestesia — Cores, projeto e desempenho

https://www.asahq.org/standards-and-guidelines/statement-on-labeling-of-pharmaceuticals-for-use-in-anesthesiology (acesso em 19/10/2021)


Boletim Minuto Especial: Dia Mundial da Anestesia

Talvez não exista nenhum avanço no conhecimento da medicina que tenha aliviado mais o sofrimento humano que a descoberta da anestesia. Esse grande presente para a humanidade foi dado por três norte-americanos: Crawford W. Long, Horace Well e William Thomas Green Morton. Esse último revolucionou a medicina, no dia 16 de outubro de 1846, ao usar o éter sulfúrico como indutor da anestesia na que ficou conhecida como a primeira intervenção cirúrgica realizada com anestesia geral durante a extirpação de um tumor de pescoço. 

Depois de 175 anos, na mesma data, o mundo celebra o Dia Mundial da Anestesia, um momento de reconhecer o trabalho de milhares de anestesiologistas no Brasil e no mundo, que são os responsáveis por cuidar do paciente no momento de maior fragilidade, proporcionando segurança e bem-estar durante todo o procedimento. 

No Brasil, antes mesmo da fundação da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), dezenas de médicos já discutiam a importância da organização de um grupo para a prevenção de acidentes ligados ao ato anestésico, a promoção da especialidade e a representação profissional. Em 1939, Mario Castro de Almeida Filho, Oscar Vasconcellos Ribeiro e Ivo Lazzarini criaram o primeiro serviço profissional de anestesia na cidade do Rio de Janeiro, o Serviço Médico de Anestesia (SMA). A evolução da anestesia nessa época deveu-se à anestesia geral, que possibilitou o uso de novos equipamentos, como os aparelhos McKesson e Heidbrink, e o emprego de agentes inéditos, como o ciclopropano, usado pela primeira vez no Brasil por Álvaro de Araújo Sales, em 1936.  

Durante algumas décadas, em pleno século XX, a anestesia era administrada por pessoas não credenciadas, como acadêmicos de medicina, irmãs de caridade, atendentes de enfermagem, parteiras leigas, farmacêuticos e até mesmo pessoas que não tinham nenhuma relação com a área médica; até serventes ou ex-pacientes eram chamados para desempenhar a função de administrar o “cheiro” sob o comando, a distância, do cirurgião.  

Com o número crescente de médicos e estudantes interessados em anestesia, clínicas e hospitais foram, paulatinamente, organizando seus serviços de anestesia. No início da década de 1940, diversos colegas passaram a se entusiasmar pela nova especialidade. 

Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) surgiu há pouco mais de 70 anos, em 1948, e desde então abraça a bandeira da representação profissional em paralelo com a formação e certificação de profissionais médicos, ações também essenciais para a evolução contínua da especialidade.   

Fonte: Sociedade Brasileira de Anestesiologia: 65 Anos de História. Editores: Airton Bagatini, Michelle Sales e Silva e Maria de Las Mercedes G. Martin de Azevedo. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Anestesiologia/SBA, 2013. 176 p.; 24,5 cm; ilust. 


Segurança do paciente: uma prioridade global de saúde

Celebrado no dia 17 de setembro, o “Dia Mundial da Segurança do Paciente” tem o objetivo de conscientizar profissionais de saúde, gestores, órgãos governamentais, pacientes, educadores e sociedade civil sobre a necessidade da implementação das práticas de segurança dentro dos serviços de saúde. Tal ação contribui para minimizar riscos e danos ao paciente, refletindo na melhoria da qualidade do cuidado prestado nos serviços de saúde do país.

Os danos ao paciente por eventos adversos são uma das principais causas de morte e incapacidade em todo o mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) 134 milhões de eventos adversos ocorrem anualmente devido à atenção insegura em hospitais, nos países de baixa e média renda, contribuindo para 2,6 milhões de mortes. Enquanto calcula-se que um em cada 10 pacientes seja prejudicado enquanto recebe atendimento hospitalar, em países de alta renda.

Reconhecendo a segurança do paciente como central na prestação de atenção à saúde e no fornecimento da cobertura universal de saúde, a OMS e o Reino Unido lançaram em conjunto o “Global Patient Safety Collaborative”. O objetivo dessa iniciativa é garantir e ampliar a ação global em relação à segurança do paciente e colaborar estreitamente com países de baixa e média renda para reduzir os danos evitáveis aos pacientes e melhorar a segurança de seus sistemas nacionais de saúde.

No Brasil, o Ministério da Saúde instituiu o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), por meio da Portaria MS/GM nº 529/2.013, com o objetivo geral de contribuir para a qualificação do cuidado em saúde, em todos os estabelecimentos de saúde do território nacional, públicos ou privados, de acordo com a prioridade dada à segurança do paciente na agenda política dos estados-membros da OMS.

Como melhorar a segurança do paciente?

Se você é um paciente:

– envolva-se ativamente no seu próprio cuidado;
– é bom fazer perguntas! Cuidados de saúde seguros começam com uma boa comunicação;
– certifique-se de fornecer informações precisas aos profissionais de saúde sobre seu histórico de saúde.

Se você é um profissional de saúde ou líder de serviços de saúde:

– envolva os pacientes como parceiros em seus próprios cuidados;
– trabalhem juntos pela segurança do paciente;
– garanta o desenvolvimento profissional contínuo para melhorar suas habilidades e conhecimentos em segurança do paciente;
– crie uma cultura de segurança aberta e transparente.

Se você é um formulador de políticas:

– investir na segurança do paciente resulta em economia financeira;
– invista na segurança do paciente para salvar vidas e gerar confiança;
– torne a segurança do paciente uma prioridade nacional de saúde.

Se você é um pesquisador, estudante, faz parte de instituição acadêmica ou profissional:

– gere evidências para melhorar a segurança do paciente. Sua pesquisa é importante!
– incentive a pesquisa em segurança do paciente;
– incorpore a segurança do paciente em currículos e cursos.

Se você é de uma associação profissional, organização ou fundação internacional:

– promova a segurança do paciente para alcançar a cobertura universal de saúde;
– ofereça oportunidades de aprendizado e desenvolvimento para a segurança do paciente.

Fontes:

Agência Nacional de Vigilância Sanitária
Ministério da Saúde
Organização Mundial da Saúde
Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente


Suicídio entre anestesiologistas: antes que setembro acabe, precisamos falar sobre isto

Por Michelle Nacur Lorentz

Evidências sugerem ser o profissional de saúde o mais propenso a cometer suicídio que a população geral.  O médico parece figurar como profissão de maior risco e na profissão, a anestesiologia seria uma das especialidades com maior índice de suicídio, atrás apenas da medicina interna e psiquiatria.

Estima-se que 3,2 a 25% dos anestesiologistas já experimentaram comportamento ou ideação suicida e 0,5 a 2% já tentaram autoextermínio. Tais estatísticas colocam o suicídio como um problema de saúde seríssimo em nosso meio, havendo autores que defendem que tal tema deva ser abordado como um problema de saúde ocupacional.

Embora as taxas de suicídio variem entre países, com tendência a diminuição na Europa, os trabalhos de uma forma geral demonstram aumento nas taxas de suicídio entre médicos, principalmente entre as mulheres.

Algumas teorias foram propostas para explicar tal fenômeno, como o estresse, a insatisfação com o trabalho, o burnout, a associação com doenças mentais, as altas cargas laborais, o comportamento compulsivo, a dificuldade do médico em buscar ajuda, o acesso a fármacos letais, além da associação com alcoolismo e drogadição. No caso das mulheres, acrescente o acúmulo de trabalhos e responsabilidade domésticas, sociais e na educação dos filhos.

Adicione a tudo isto as mudanças constantes no mercado de trabalho, judicialização da medicina, pressão por parte dos convênios, pacientes e colegas, perda da autonomia, violência no local de trabalho e diminuição na remuneração. Neste cenário é natural que ocorra grande redução na satisfação profissional.

O suicídio parece ser um processo lento e pouco se sabe sobre a transição entre a ideação suicida, a tentativa de suicídio e a efetivação dele. Mas sabemos que estratégias para prevenir tais situações são necessárias. Sabemos que a prevenção deve começar cedo, tão logo o estudante ingresse na faculdade de Medicina. Sabemos que as estratégias preventivas devem se basear na educação, no autoconhecimento, no trabalho das sociedades e na desmistificação do assunto.

Dia 10 de setembro foi o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Precisamos falar sobre isto. Precisamos olhar uns pelos outros. A saúde mental de cada anestesiologista importa. Cada vida humana perdida dessa forma configura numa verdadeira tragédia. Precisamos entender os porquês e combatê-los antes que percamos mais colegas de forma tão dramática.


Edição de 1 ano de Boletim Minuto

Por Luis Antonio dos Santos Diego

Há 12 meses, a Diretoria de Defesa Profissional da SBA iniciava um novo projeto de comunicação com os associados: o Boletim Minuto. O objetivo desse canal é estimular as boas práticas da anestesiologia e ressaltar os novos enfoques da qualidade e segurança, além da saúde ocupacional.
O Boletim Minuto surgiu em um difícil momento para a humanidade, especialmente para nós, anestesiologistas, que se viu impactada pela pandemia da Covid-19.

Os desafios foram, e ainda são diversos, como a própria atividade laboral no cotidiano, a sobrecarga de trabalho e a saúde ocupacional, sem contar a perda de valorosos colegas. Neste cenário, o BM foi uma fonte confiável de informação sobre assuntos de extrema relevância para a especialidade.

O sucesso do BM se deve aos diversos colegas que contribuíram de forma voluntária com um conteúdo de extrema qualidade, que foram essenciais para as ações de conscientização e promoção da especialidade, compartilhadas com os mais de 13 mil associados e alcançando milhares de usuários no site da SBA e redes sociais.


Conheça as ações da SBA para a segurança do paciente

Por dr. Luis Antonio Diego
Diretor do Departamento de Defesa Profissional da SBA

O Conselho de Defesa Profissional da SBA reuniu-se no final de junho 2021 para a apresentação das realizações no período e para discutir as futuras ações até o final do ano. O balanço foi muito positivo, com diversas atividades que obtiveram retorno assertivo. Esse mesmo canal, o Boletim Minuto vem sendo acessado por centenas de colegas, assim como o SBA podcast, ambos são divulgados quinzenalmente e informam aos colegas temas da qualidade e segurança em anestesia.

Também temos presença ativa na Anestesia em Revista, a publicação trimestral da SBA. No último número, divulgado no dia 9 de julho, fizemos uma síntese do trabalho que a Comissão Temporária de Telemedicina e Inovação veio realizando no período. Vale conferir!

A Comissão de Qualidade e Segurança em Anestesia também vem realizando um belíssimo trabalho. No mês de junho, sob a coordenação da dra. Michelle Nacur, foi realizado um webinário sobre a Segurança do Paciente, no qual houve o lançamento do aplicativo Emergências em Anestesia.

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Durante o webinário houve a oportunidade de se discutir temas relevantes sobre a segurança do paciente e, principalmente, no engajamento dos anestesiologistas nas atividades do Dia Mundial da Segurança do Paciente, que irão ocorrer em 17 de setembro deste ano. A SBA também irá participar com diversas outras associações e entidades da Aliança Mundial da Segurança do Paciente cuja programação será lançada muito em breve.

A Comissão de Saúde Ocupacional está envolvida na elaboração das atividades do Simpósio de Saúde Ocupacional (SISO) que acontecerá em 21 do próximo mês. Teremos diversos temas a serem abordados, mas a sustentabilidade ambiental e como isso já afeta o nosso cotidiano e comprometerá a nossa e próximas gerações se medidas de preservação ambiental importantes, não só globais e governamentais, mas também locais e individuais, forem implementadas.

Além disso, participamos do coletivo MEDICOVID, que reúne um grupo de sociedades para orientar e discutir a segurança dos medicamentos, principalmente quando falamos em rotulagem e embalagens. Também integram o grupo: ABRAMEDE, AMIB, ISMP, REBRAENSP, SBRAFH e a SOBRASP.

São muitas as atividades que a Defesa Profissional tem participado. Estamos atuando junto com a AMB e o IBDM na defesa do nosso trabalho. Nesse aspecto, são muitos os frutos que o Núcleo de Gestão do Trabalho de Anestesiologista (NGTA), está colhendo, pois todos os meses são oferecidas ao anestesiologista oportunidades de discutir as dificuldades nas relações de trabalho com as operadoras e estabelecimentos de saúde, mas especialmente o que nós, profissionais, podemos contribuir para aumentarmos nosso valor como profissional e também expô-lo a todas as partes envolvidas.

Por fim, continuamos com a Assessoria Jurídica que vem trabalhando muito e respondendo às solicitações dos nossos sócios. O Curso Jurídico vem colocando em pauta muitas das dúvidas que coletamos nas demandas jurídicas.


Gerenciamento da Anestesia Segura

Por dr. Airton Bagatini
TSA-SBA
Responsável pelo CET do SANE
Coordenador da Perspectiva Assistencial do Hospital Ernesto Dornelles de Porto Alegre (RS)
Presidente da SBA – Gestão 2013.

Não restam dúvidas de que os avanços na área da saúde, especialmente no âmbito diagnóstico e cirúrgico, trouxeram benefícios extraordinários para o tratamento de patologias inimagináveis no passado. Porém, estes avanços não são isentos de riscos associados e gerenciá-los é o desafio nas perspectivas atuais.

Neste sentido, a Segurança do Paciente, conceituada como redução a um mínimo aceitável do risco de dano desnecessário associado ao cuidado em saúde ganha espaço e notoriedade. Inúmeras Fundações governamentais e não governamentais, Associações, Redes e Institutos preocupados e interessados no tema foram criadas e a partir destas ações de melhorias, campanhas, protocolos e iniciativas foram propostas visando minimizar o impacto dos erros nas instituições de saúde, garantindo segurança ao paciente, ao profissional de saúde e à própria instituição.

Na prática atual, os resultados destas ações ainda estão longe do ideal e a Segurança do Paciente é considerada um grave problema de saúde pública. O complexo segmento da saúde segue operando com um baixo grau de confiabilidade e os pacientes sofrendo danos preveníveis durante o seu processo assistencial.

A assistência cirúrgica tem papel fundamental neste contexto. Estima-se que mundialmente sejam realizadas 187 a 281 milhões de cirurgias por ano e os resultados alertam para a necessidade urgente de mudança: sete milhões de pacientes cirúrgicos apresentam complicação decorrente do procedimento; a cada quatro pacientes cirúrgicos, um sofre alguma complicação perioperatória; dos eventos adversos em pacientes hospitalizados, em média 50% estão relacionados a cirurgia; a mortalidade varia de 0,4 a 0,8% nos países desenvolvidos e de 5 a 10% naqueles em desenvolvimento; e, 50% das complicações são consideradas evitáveis.

As causas para a ocorrência destes eventos são multifatoriais. Diferentemente do passado, quando se creditava unicamente ao profissional envolvido a culpa pelo incidente, hoje sabe-se que falhas nos processos de trabalho, estrutura física inadequadas das organizações, falhas de comunicação, sobrecarga, distrações e o trabalho solitário do médico são alguns dos fatores que contribuem para a insegurança nas instituições de saúde. Em comparação com uma década atrás, agora temos uma boa compreensão da fenomenologia do erro e do dano.

Na busca por estratégias que de fato garantam uma assistência segura aos pacientes bem como melhorias sustentadas e generalizadas para os sistemas de saúde, partilhar de uma cultura de segurança emerge como um requisito essencial a ser desenvolvido e aprimorado. A segurança deve ser vista através dos olhos dos pacientes e gerenciada com uma visão estratégica e ampla, não simplesmente pontuada em falhas específicas.


Dra Rosa Avilla: conectando a anestesiologia e a música

No último sábado (17), durante a abertura do 2º Congresso Brasileiro de Inovação e Gestão em Saúde, a SBA fez o lançamento do videoclipe em homenagem aos anestesiologistas do Brasil.  O vídeo é um projeto desenvolvido em conjunto com a dra. Rosa Avilla, anestesiologia e intérprete, que compôs, junto com o maestro e compositor David Pasqua, a canção “Sopro de Vida”, especialmente desenhada para abordar o trabalho do anestesiologista no enfrentamento à Covid-19, retrata o quão incansáveis foram e continuam sendo nesta realidade que emplacou o Brasil.

Dra. Rosa acredita que os anestesiologistas são parte importante da vida das pessoas “Somos parte integrante da vida das pessoas desde o seu nascimento, desde seu primeiro sopro de vida, e raramente alguém se lembra da gente”.

Confira abaixo a entrevista feita com a dra. Rosa, na qual ela fala um pouco sobre como a carreira como artista e sobre o seu processo criativo.


SBA: A senhora compartilhou conosco que a música sempre foi algo presente em sua vida, mas que acabou se afastando por conta da medicina, então como foi esse retorno após tantos anos? 

Dra. Rosa Avilla: A música é poderosa e ciumenta, mas qualquer dom exige que você faça algo com ele para devolvê-lo ao mundo. Sempre estive perto da música, porém mais longe do que um dom ou um sonho exigem.

Estudei canto erudito por 10 anos e a técnica ficou adormecida. Precisava estimulá-la.  Há cerca de 2 anos, com meus filhos já formados, conheci meu produtor musical, o maestro e compositor David Pasqua. Foi o acaso, ou talvez, o universo conspirando positivamente. A partir de então passei a montar repertórios populares e a me apresentar em casas em São Paulo, sempre lotadas de amigos incrédulos. Mesmo com a pandemia, estudei e aprimorei técnicas de transmissão, produzi muita música e tenho um programa de variedades no Youtube. Comecei a fazer trabalhos muito sérios e não pretendo parar mais!


SBA: Imagino que não seja fácil conciliar a carreira médica com a de artista, qual o segredo? 
RA: O segredo, na verdade, não é segredo. A mesma recomendação de sempre e foi assim por toda a minha vida pessoal e profissional: determinação, trabalho e completa ausência de preguiça! Para alcançar um objetivo, qualquer que seja ele… Como, por exemplo, passar no TSA, precisa MUITA dedicação.


SBA: A SBA a convidou para compor e produzir um videoclipe em homenagem aos anestesiologistas. Poderia nos contar um pouco sobre o processo criativo? 
RA: O convite foi feito há muitos meses, logo depois do jingle e clipe que também compus para a Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista para a campanha “Mulheres Também Infartam”. O dr. Takaschima (dr. Augusto Takaschima, diretor presidente da SBA) acreditou que nós anestesiologistas, que sempre vivemos nos bastidores e que ganhamos notoriedade nesta pandemia, merecíamos um carinho. E foi pensando em fazer um carinho que surgiu letra e melodia. A inspiração foi genuína e veio da sinceridade. Meu produtor musical, David Pasqua, com sua expertise de músico, finalizou o projeto musical.


SBA: Qual a mensagem central o clipe passa?
RA: A mensagem diz respeito à nossa importância enquanto anestesiologistas: somos parte integrante da vida das pessoas desde o seu nascimento, desde seu primeiro sopro de vida, e raramente alguém se lembra da gente. Nesta pandemia, saímos um pouco do ostracismo e trabalhamos muito duro, creio que ainda sem o reconhecimento devido e necessário da sociedade leiga. Mas eu queria mesmo é dar luz à especialidade e à nossa própria consciência da nossa importância enquanto médicos e especialistas dedicados!


SBA: Gostaria de acrescentar alguma informação? 
RA: A vida é feita de sonhos e projetos. Queria convidar meus colegas a construírem e buscarem os seus. Quem teve Covid, quem trabalhou com pacientes Covid e sua gravidade, quem é anestesista e todos os dias se depara com a tênue linha que separa o momento em que você existe de fato e, num segundo, ficou apenas na memória das pessoas, precisa acreditar que ter sonhos e projetos tem que ser AGORA. Não podemos nos dar ao luxo de deixá-los para depois. O amanhã começa hoje.

Aldir Blanc, médico psiquiatra que faleceu de Covid dizia: “Batidas na porta da frente, é o tempo”…. Que resposta você tem a dar ao tempo?


Veja o clipe abaixo

Intérprete: dra. Rosa Avilla
Composição: David Pasqua e dra Rosa Avilla
Piano: David Pasqua​
Produção: Fábrica Produções Musicais​
Direção: David Pasqua​ Realização: SBA

Letra

Ouça a minha mensagem​
De força e coragem
Em zelar por alguém
Calma, são dias pesados​
De luta incessante
De quem quer o bem.​

Creio que falta pouco​
Pro dia de sol enfim chegar.​
Canta, serão só lembranças
As noites insones,
Tudo vai passar.​

Por tuas mãos nasce saúde, sopro de vida, despertar.​


O uso da telemedicina na prática da anestesia

Por dr. Antonio Luis Diego

A telemedicina não é um método novo de se fazer medicina, nem entre nós. O prefixo “tele”, como em televisão e telefone, refere-se à atividade à distância. Os dois meios de comunicação mencionados há muito tempo servem como veículos que, de certo modo, atuam na prática da medicina ao “encurtar” a distância física e, por conseguinte, o tempo necessário para alguma orientação que, muitas vezes, pode até vir a salvar vidas.

Por outro lado, quantos aos programas televisivos sobre saúde que são exibidos diuturnamente em meios de comunicação, como rádio e televisão, pode-se dizer que não são personalizados, mas não deixam de ser, quando éticos e bem apresentados, uma parte importante da medicina preventiva. Hoje, por meio dessas mídias, a população obtém informações importantes para escolhas pessoais sobre a sua saúde, de seus familiares e até comunidades inteiras.

A questão da telemedicina que por ora se impõe é a utilização regular e regulamentada da prática médica no “stricto senso”, seja na realização de uma consulta pré-anestésica, ou no seguimento de pacientes em clínicas de dor, por exemplo. Apesar de ter se tornado uma realidade nesses tempos da Covid-19, com o distanciamento social, tornando-se uma medida de saúde pública, a Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) 1643/2002 já estabelecia alguns critérios importantes para a sua realização seguindo a Declaração de Tel Aviv na 51ª Assembleia Geral da Associação Médica Mundial em 1999 que definia a telemedicina como  o exercício da medicina à distância, cujas intervenções, diagnósticos, decisões de tratamento e recomendações estão baseadas em dados, documentos e outra informação transmitida através de sistemas de telecomunicação”. Nesse conceito, portanto, a telemedicina não é considerada apenas uma ferramenta, mas a utilização de recursos digitais intensivos para ampliar os serviços, a logística e os cuidados de saúde aos pacientes (Chao L W/2018).

A Lei Nº 13,979, de fevereiro de 2020, que dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde (Covid-19), e a Portaria do Ministério da Saúde Nº467, de março de 2020, são os marcos jurídicos que abonam a realização da teleconsulta, da teleorientação e do telemonitoramento, ainda que em caráter excepcional.

São diversos os aspectos que denotam estudo e regulamentação na telemedicina, não apenas o técnico e de certificação, mas muitos outros que vão desde os aspectos éticos, jurídicos até o remuneratório.

A SBA vem atuando sobremaneira para que todos esses pontos sejam abordados e bem compreendidos por todos os associados. Com essa finalidade foi criada uma Comissão Temporária de Telemedicina e Inovação que continuará os trabalhos que já vinham sendo realizados anteriormente. Essa comissão acompanhará os avanços nesse campo, assim como a regulamentação que está sendo estuda pelo Conselho Federal de Medicina.